O QUE OS ESPÍRITAS PRECISAM SABER XX
A ESCOLHA DAS PROVAS É A LEI DE DEUS
Quando os primeiros estudiosos do Espiritismo tiveram contato com a filosofia espírita por meio de O Livro dos Espíritos, foram apresentados à doutrina da reencarnação vinculada ao princípio da escolha das provas. Segundo essa proposta, cada espírito escolhe previamente as experiências que vivenciará com o objetivo de promover seu próprio aperfeiçoamento e superar as imperfeições que possa ter desenvolvido ao longo de suas existências.
Mas onde reside a justiça da reencarnação? De acordo com os espíritos, ela está no fato de que o progresso espiritual depende do esforço pessoal de cada indivíduo. Trata-se de uma justiça baseada na responsabilidade individual e na equidade, pois todos os espíritos são criados simples e ignorantes, e todos, sem exceção, estão destinados à perfeição — a tornarem-se espíritos puros. A única diferença entre eles está no tempo que levam para alcançá-lo, conforme o uso do seu livre-arbítrio:
Todos os Espíritos tendem à perfeição, e Deus lhes proporciona os meios de consegui-la, com as provas da vida corpórea. Mas, na sua justiça, permite-lhes realizar, em novas existências, aquilo que não puderam fazer ou acabar numa primeira prova ( LE-F, q. 171, tradução do autor da edição em francês).
A liberdade de gerir o próprio destino fundamenta-se justamente nesse princípio: a possibilidade de escolha. A resposta dos espíritos é clara: “Ele mesmo escolhe o gênero de provas que deseja vivenciar, nisto consiste o seu livre-arbítrio” (LE-F, q.258, tradução do autor da edição em francês).
A compreensão dessa lei universal, por meio de uma fé raciocinada, oferece aos que sofrem nesta vida a força necessária para enfrentar suas batalhas interiores — seja pela superação do mal moral e pela resignação, seja pelo esforço de superação diante do sofrimento físico — tornando-os conscientes de que sairão fortalecidos dessas experiências, pois quanto mais desafiadora for a prova, mais significativa e purificadora será a conquista.
Nesse sentido, O Evangelho segundo o Espiritismo esclarece:
Como desencarnados, quando vagueáveis no espaço, escolhestes a vossa prova, porque vos consideráveis bastantes fortes para suportá-la. Por que murmurais agora? Vós que pedistes a fortuna e a glória, o fizestes para sustentar a luta com a tentação e vencê-la. Vós que pedistes para lutar de alma e corpo contra o mal moral e físico, sabíeis que quanto mais forte fosse a prova, mais gloriosa seria a vitória.” (ESE, 5:19).
Quais são as consequências, então, da justiça divina se manifestar por meio da escolha das provas? Os espíritos são claros em sua resposta:
Dando ao Espírito a liberdade de escolha, deixa-lhe toda responsabilidade dos seus atos e das suas consequências; nada lhe estorva o futuro; o caminho do bem está à sua frente, como o do mal. Mas se sucumbir, ainda lhe resta uma consolação, a de que nem tudo se acabou para ele, pois Deus, na sua bondade, permite-lhe recomeçar o que foi mal feito (ESE, 5:19).
Desse modo, é fundamental compreender a distinção entre a vontade de Deus — que estabelece leis eternas, universais, justas e perfeitas — e a vontade humana, que se manifesta por meio do livre-arbítrio, sendo sujeita a escolhas, mudanças e aperfeiçoamento. Quando alguém se vê diante de um perigo iminente, essa circunstância ocorre dentro das leis divinas. A prova está justamente no fato de o espírito ter escolhido vivenciar tal situação, reconhecendo-a como uma oportunidade de crescimento espiritual. Deus permite que ele experimente a provação que ele elegeu.
O espírito, portanto, escolhe o tipo de prova a que se submeterá. Pode, por exemplo, optar por nascer em um ambiente hostil, entre malfeitores, a fim de resistir às más influências e superar esse desafio moral. No entanto, ele não conhece previamente os atos específicos que realizará, suas ações futuras dependerão das escolhas feitas durante a vida corporal. Ele tem apenas noção geral da natureza das dificuldades que enfrentará, não dos detalhes de cada acontecimento.
Os espíritos reforçam esse ponto com a seguinte explicação: “Só os grandes acontecimentos, aqueles que influem no destino, estão previstos: (LE, q. 259).
Assim, afirmam que ninguém morre antes da hora determinada. Quando esse momento chega, nada pode evitá-lo:
Deus sabe com antecedência qual o gênero de morte por que partirás daqui, e frequentemente teu Espírito também o sabe, pois isso lhe foi revelado quando fez a escolha desta ou daquela existência (LE, q. 853a).
Isso não justifica, contudo, a indiferença diante do perigo. as precauções tomadas para preservar a vida são os meios naturais para evitar a morte. A imprudência, a negligência e os abusos podem provocar vicissitudes ou mesmo a morte antes do tempo previsto, tornando-se causas atuais de sofrimentos futuros.
A lei da escolha das provas revela que nada no destino humano é arbitrário ou imposto: cada espírito assume, antes de renascer. as experiências que considera necessárias ao próprio progresso. Mas, para compreender plenamente esse mecanismo, é preciso aprofundar o papel do livre-arbítrio, que, desde os primeiros estágios da existência espiritual até a maturidade moral, conduz cada ser à responsabilidade pelas próprias escolhas e à conquista da verdadeira liberdade.
O LIVRE-ARBÍTRIO E O PROGRESSO ESPIRITUAL
Inicialmente, o espírito é simples e ignorante, sem consciência de si mesmo. Nessa fase primitiva, Deus o conduz pelas experiências necessárias, suprindo-lhe a inexperiência — como se faz como uma criança — até que desenvolva a razão. Ao longo das vidas sucessivas, pelo trabalho e pela superação das dificuldades e vicissitudes, o espírito fortalece sua vontade e conquista gradualmente a liberdade de escolha, assumindo a responsabilidade moral que decorre do amadurecimento de seu livre-arbítrio.
A partir desse ponto de maturidade espiritual, o espírito passa a escolher conscientemente as provas que julga adequadas ao seu progresso. Durante a existência terrena, essa liberdade se manifesta “na faculdade de ceder ou resistir aos arrastamentos a que todos nos submetemos voluntariamente” ( LE-F, q. 872, tradução do autor da edição em francês). Quando ignora as inspirações dos bons espíritos e a voz segura da própria consciência – onde estão inscritas as leis divinas -, desvia-se do caminho do bem, enveredando pelo mal. A responsabilidade, então, recai inteiramente sobre ele.
Contudo, o Criador, infinitamente bom e misericordioso, nunca fecha ao espírito as portas do arrependimento. A todos os que se afastam do bem chega inevitavelmente o momento em que, cansados de sofrer, reconhecem sua responsabilidade sobre as faltas e vencem o orgulho. Rogam a Deus, que os acolhe como o Pai que abre os braços ao filho pródigo.
O espírito arrependido retoma o caminho do bem, reabilitando-se por meio de novas provas, destinadas à expiação e à reparação das faltas cometidas. A partir dessa mudança de mentalidade, uma nova esperança o envolve, e o caminho da felicidade se descortina. Quando suporta com resignação as grandes provas que escolheu, traz no coração a força da gratidão a Deus. E se as suporta sem murmurar, alcança a vitória moral. Se falha, a oportunidade retornará, pois nada está perdido. De acordo com essa justiça misericordiosa de Deus, todos os espíritos imperfeitos, sem exceção, acabarão por se reabilitar e retornar ao bem.
É o espírito quem determina o próprio destino: pode prolongar os sofrimentos, pela obstinação no mal, ou superá-los, pelo esforço de fazer o bem. Entretanto, quando, no mundo espiritual, o espírito imperfeito sofre as consequências naturais de suas faltas, não vislumbra o fim dos sofrimentos e a punição parece-lhe eterna. Eis o sentido simbólico do “fogo eterno” usado por Jesus nos Evangelhos.
Essa eternidade é relativa, jamais absoluta. O espírito endurecido pode persistir no mal por anos ou séculos, mas o arrependimento sempre chega. Deus o impele ao bem e a consciência lhe desperta o remorso. Chegará o momento de enfrentar a justiça — não a justiça punitiva, mas aquela que se manifesta por meio do julgamento da própria consciência.
Mesmo que se julgue sozinho, jamais está abandonado. A imperfeição é uma névoa que lhe impede de perceber a realidade espiritual em que se encontra. Mas, na verdade, ele está imerso no amor de Deus. Seu guia protetor atua discretamente, inspirando-o com bons pensamentos e o desejo de progredir e reparar as próprias faltas. Pois “Ele age bem ou mal em virtude de seu livre-arbítrio, mas sem ser fatalmente impelido em um sentido ou outro” (CI, p. 135).
Quando o espírito permanece endurecido no mal por longo período, o amor e misericórdia de Deus se manifestam de forma educativa: abrindo-lhe a possibilidade de uma nova encarnação, não como punição imposta, mas como oportunidade de reparar faltas cometidas, cultivar virtudes e acelerar seu progresso espiritual.
Referência:
1- O espiritismo é obra de Jesus / Paulo Henrique de Figueiredo. — Guarulhos (SP): Fundação Espírita André Luiz, 2025.