O que os espíritas precisam saber XIX
OS INIMIGOS INVISÍVEIS E OS REFRATÁRIOS
A quem interessaria adulterar as obras conclusivas de Allan Kardec? Qual o objetivo de tão infame ato? Os espíritos não poderiam prever esse perigo para o estabelecimento do Espiritismo?
Desde de 1861, quando de sua viagem para Bordeaux, Kardec vinha sendo prevenido pelos espíritos superiores de que haveria tentativas de causar cisão e desvios no movimento espírita em formação. Ele tornou público esse aviso, lendo ao final da reunião uma mensagem de Erasto alertando:
Não ignoro, e não deveis ignorar não mais, que se empregará de tudo para semear a divisão entre vós; que se procurará armar-vos emboscadas; que se semeará, sobre o vosso caminho, armadilhas de toda sorte; que vos oporão uns aos outros, a fim de fomentar uma divisão e levar a uma ruptura sob todos os aspectos lamentáveis. ( revista Espírita, novembro de 1861).
De quem seria a iniciativa prejudicial? Erasto denuncia os inimigos invisíveis como mentores desse ataque, fazendo uso, inclusive, de falsos ensinamentos, contrários à teoria espírita, para desvirtuá-la:
tereis de lutar (…), sobretudo, contra a turba dos espíritoa enganadores que, encontrando no vosso meio uma rara reunião de médiuns, porque sois melhor aquinhoados sob esse aspecto, virão logo vos atacar: uns com dissertações sabiamente combinadas onde, à custa de algumas piedosas tiradas, insinuarão a heresia ou algum princípio dissolvente; os outros com comunicações abertamente hostis aos ensinamentos dados pelos verdadeiros missionários do Espírito de Verdade. (Ibidem)
Seria preciso manter a união e até mesmo denunciar os causadores de cismas, encarnados ou desencarnados, como lobos entre ovelhas, para preservar a todos. Sobre isso, Erasto recomenda: “não temais nunca então em desmascarar os patifes que, novos Tartufos, se introduzirão entre vós sob a máscara da religião; sede igualmente sem piedade para com os lobos devoradores que se escondem sob peles de ovelhas”. (Ibidem)
Aqui estava surgindo, sob o alerta dos espíritos iniciadores do Espiritismo, o desvio da moral autônoma, proposta por Jesus e retomada pela doutrina espírita em seus estudos psicológicos. Era preciso unir todos os esforços para manter a unidade dos princípios espíritas fundamentais, entre eles a caridade desinteressada, a liberdade de pensamento e consciência, a compreensão da lei da escolha das provas, as diferenças entre sofrimento físico e moral, o entendimento de que Deus não premia nem castiga, a reencarnação como meio educativo do espírito, entre tantos outros. Pois os falsos profetas da erraticidade desejavam impor falsos ensinamentos, como ideias de queda, carma, sofrimento físico como castigo divino.
Os inimigos invisíveis iriam encontrar os indivíduos partidários de seus ideais retrógrados entre os inimigos das ideais de renovação social que o Espiritismo apoia. Kardec os qualificou, num trecho retirado na versão adulterada de A Gênese:
Há, entretanto, os que são essencialmente refratários a essas ideias, mesmo entre os mais inteligentes, e que certamente não a aceitarão, pelo menos nesta existência; em alguns casos, de boa-fé, por convicção; outros por interesse. São aqueles cujos interesses materiais estão ligados à atual conjuntura e que não estão adiantados o suficiente para deles abrir mão, pois o bem geral importa menos que o seu bem pessoal — ficam apreensivos ao menor movimento reformador. A verdade é para eles uma questão secundária, ou, melhor dizendo, a verdade para certas pessoas está inteiramente naquilo que não lhes causa nenhum transtorno. Todas as ideias progressivas são, de seu ponto de vista, ideias subversivas, e por isso dedicam a elas um ódio implacável e lhes fazem uma guerra obstinada. São inteligentes o suficiente para ver no Espiritismo um auxiliar das ideias progressistas e dos elementos da transformação que temem e, por não se sentirem à sua altura, eles se esforçam por destruí-lo. (edição original, p. 407)
Desde a desencarnação do professor Rivail e com a constituição da Sociedade Anônima da caixa geral e central do Espiritismo, desfez-se a estrutura de pesquisa e comunicações entre a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e os grupos que com ele se comunicavam, tanto por cartas quanto pela Revista Espírita. Sem a organização coletiva planejada por Kardec, ruiu também a possibilidade de se utilizar o método da universalidade do ensino dos espíritos superiores, instrumento basilar para um contínuo estabelecimento dos conceitos fundamentais. Enfim, quanto à unidade de princípios, os textos alterados demonstram que esse foi o principal alvo dos adulteradores de suas obras, sobretudo no que toca à moral e a psicologia. Isso porque a teoria moral espírita é autônoma, oposta ao dogmatismo heterônomo das religiões ancestrais e do materialismo.
O melhor entendimento dos fatos ocorridos antes, durante e após a edição de O Céu e o Inverno, que explicam os desvios sofridos pelo movimento espírita, exige uma longa exposição que aqui não caberia. Para mais amplos esclarecimentos, remetemos o leitor à obra Nem Céu nem Inferno — as leis da alma segundo o Espiritismo (ed. FEAL), de nossa autoria (Paulo Henrique de Figueiredo e Lucas Sampaio).
DA HETERONOMIA À AUTONOMIA
O mundo convive, desde o início da civilização, com a ideia de castigo enquanto instrumento expiatório para oprimir o indivíduo culpado, exaurindo suas resistências, até que, cansado pelo medo, pela dor e pelo desalento, ele se submeta à vontade alheia, segundo a determinação das leis, caracterizando a regeneração completa do condenado. Dessa forma, a expiação pela pena purgaria sua culpa, purificando-o.
Entre os hebreus, a expiação estava representada pelo sacrifício animal, com a remissão dos pecados pelo sangue. No dogma da Igreja, interpreta-se que Jesus, sacrificado como o cordeiro de Deus, fez a expiação pelos pecados da humanidade, reconciliando-a com a divindade.
Assim compreendida a expiação, todo tipo de tortura foi justificado pelo direito canônico durante a Idade Média, culminando com os terríveis suplícios da Inquisição. Os mesmos procedimentos bárbaros foram fundamentados nesse entendimento quando empregados nos castigos, nas torturas e nas humilhações aplicadas aos escravos, fossem negros, indígenas ou de outras etnias, com o objetivo de subjugá-los aos trabalhos forçados e à servidão.
O mesmo princípio foi aplicado em prisões, monastérios, orfanatos, por toda a Antiguidade, e mesmo, atenuado ou escondido, em nosso tempo. Nesses casos extremos, quando os acusados eram quase sempre inocentes e vítimas, não havia motivo para remorso, e o resultado do castigo eram o endurecimento, a frieza, a alienação ou a profunda revolta contida no íntimo desses indivíduos pelo pavor diante do castigo interminável.
Nos dogmas de todas as religiões ancestrais, as almas foram criadas perfeitas em sabedoria e virtude, mas, quando desobedeceram a Deus, sofreram a queda, para sofrer no mundo a expiação do pecado. O corpo físico seria a fonte de todo o sofrimento, dor, doença, ignorância e tendência ao mal. Também as calamidades do mundo. Por fim, a incitação ao mal pelos demônios. Tudo concorrendo para que, sem arrependimento e a submissão, a alma encontre a condenação eterna no Inferno. No Céu, reservado aos escolhidos, as almas recuperariam a pureza original, desfrutando de prazeres e alegrias por toda a eternidade.
Em toda essa tradição, dor e prazer são os fundamentos do castigo e da recompensa, seja nesta vida ou na vida eterna. Esse é o princípio do bem e do mal. Na sociedade, a religião foi utilizada como instrumento de poder para subjugar as massas, como explica Kardec: “A religião era, nesse tempo, um freio poderoso para governar. (…) era necessário apresentá-la como absoluta, infalível e imutável (…). Disso resultou o princípio da fé cega e da obediência passiva”.
O materialismo, por sua vez, também se fundamenta na heteronomia. Os hábitos, decorrentes das impressões dos sentidos, regidos pelas forças fisiológicas do prazer e da dor, determinam as personalidades. Os castigos seriam instrumentos para corrigir as más tendências, enquanto prazeres e alegrias serviriam para recompensar o comportamento adequado. Desse modo se fundamentam as regras sociais.
Nos tempos do professor Rivail, porém, havia surgido na França uma terceira via quanto ao entendimento da moral, alternativa às heteronomias dogmáticas e descrentes das religiões e do materialismo. Trata-se da psicologia experimental espiritualista, criada a partir do pensamento de Maine de Biran. Segundo suas ideias, dor e prazer seriam fundamentos da vida animal, mas, em sendo o ser humano uma “alma encarnada”, o fato psicológico primordial não seria a sensação causada pelos sentidos ( como concebiam os materialistas pós-Revolução Francesa), mas a escolha, o ato da vontade. Ou seja, o ser humano existe quando se manifesta por meio das faculdades da alma ( razão, vontade e imaginação). Pelo exercício da razão é que se produz o conhecimento. Pela vontade livre, seguindo as diretrizes da consciência, o indivíduo age moralmente. escolhendo seus atos e criando os hábitos adquiridos. Pela imaginação torna-se criativo.
A partir dessa teoria psicológica inovadora, baseada na autonomia moral, os discípulos de Biran — Royer-Collard, Victor Cousin, depois Jouffroy, Paul Janet – criaram, após 1830, a filosofia oficial do Espiritualismo Racional. Na Sorbonne, estabeleceram as disciplinas das ciências filosóficas em dois grupos: as ciências psicológicas (psicologia experimental, lógica, moral teórica e prática, estética) e as ciências metafísicas (teodiceia, cosmologia racional, psicologia racional). Depois, essas disciplinas foram ensinadas aos jovens nos liceus, como também a autonomia intelecto-moral, conforme propôs Rousseau, era ensinada às crianças. A moral proposta pelo Espiritualismo Racional(moral da liberdade), pesquisada na universidade e ensinada aos jovens, é oposta tanto à adotada por igrejas e religiões ancestrais(mora da submissão) quanto à do materialismo (moral do utilitarismo). A moral autônoma opõe-se à ideia de que ela seja regida pela dor e prazer, pois isso seria comparar a alma humana aos animais. Somos diferentes, pois, pela liberdade de escolha. A beleza da caridade está justamente em sua liberdade, afirmava Vitor Cousin, Paul Janet (1823-1899), por sua vez, esclarece o sentido do bem moral, segundo o Espiritualismo Racional:
Nosso princípio fundamental é que o bem moral supõe o bem natural que lhe é anterior e serve de fundamento. […] O bem moral consiste em preferir em nós o que há de melhor ao que há de inferior, os bens de alma aos bens do corpo, a dignidade da natureza humana à servidão das paixões animais, as nobres afeições do coração às inclinações de um vil egoísmo. (JANET, 1886)
Agir pelo bem moral é a escolha racional, tornando-se uma lei moral por ser a melhor escolha, e não por obediência a Deus, ou medo do castigo, seja ele divino ou imposto pela sociedade. Seu fundamento primordial é a livre escolha. A lei moral está presente na natureza do ser em sua consciência. Continua Janet:
Esta lei, que permite a evolução moral, não pode, todavia, obrigar nenhum agente, sem que lhe seja conhecida, sem que ele seja presente, isto é, sem que ele a aceite como verdadeira e lhe reconheça a aplicação necessária em cada caso particular. Essa faculdade de reconhecer a lei e aplicá-la a todas as circunstância que se apresentam é o que se chama consciência. A consciência é, pois, o ato do espírito pelo qual aplicamos a um caso particular, a uma ação por praticar-se, ou já praticada, as regras gerais dadas pela moral. (Ibidem)
Essa reação espiritualista, ocorrida na França, abriu caminho para o Espiritismo, como explica Kardec: “Foi nessas circunstâncias, extremamente favoráveis, que chegou o Espiritismo; mais cedo, ter-se-ia chocado contra o materialismo todo-poderoso; em tempo mais recuado, teria sido abafado pelo fanatismo cego”. E então continua:
Ele se apresenta no momento em que o fanatismo, morto pela incredulidade que ele mesmo provocou, não mais lhe pode impor uma barreira séria e em que se está fatigado do vazio deixado pelo materialismo; no momento em que a reação espiritualista, provocada pelos próprios excessos do materialismo, se apodera de todos os Espíritos, quando se está à procura das grandes soluções que interessam ao futuro da Humanidade. (KARDEC, [RE] 1863, p. 196)
Referência:
1- O Céu e o Inferno: ou a justiça divina segundo o Espiritismo / Allan Kardec; tradução de Emanuel Dutra – Guarulhos (SP): Fundação Espírita André Luiz, 2021.
